sábado, 20 de junho de 2015

Somos mais que vencedores!

Sábado, 3 de agosto de 2013 (antigo blog)


Que tempos difíceis os nossos! Vivemos numa era globalizada do consumismo da tecnologia, da valorização da grandeza humana na música, na arte, na política, na religião, na filosofia e na cultura. Ecos de muitos lados ouvem-se em nome da justiça, da equidade, da solidariedade, repletos de indignação contra a corrupção instalada no coração humano. 

Uma literatura pouco valorizada no atual mundo religioso, alvo de errôneas interpretações, escrita durante uma época de perseguição e hostilidade violenta por parte de um Estado totalitarista contra os seguidores de Jesus Cristo, Apocalipse de João, é uma carta que diz respeito ao objetivo final da história. Destinada a alimentar os cristãos, a literatura apocalíptica usa visões, imagens visuais, promessas, advertências e uma tapeçaria poética com profundidade em seu desvelamento.

E quanto ao sofrimento humano? Deus está alheio aos problemas do homem? Creio que não. Escutemos a sua voz em Apocalipse, capítulo 16. João ouve a voz do Senhor. A sua voz é repleta de ira contra a impenitência dos homens que seguem a Satanás. Assim como o povo egípcio provou da manifestação da justiça de Deus, vislumbrando as pragas, as sete taças de ira divina serão derramadas, não mais como trombetas de juízo temporário como advertências, mas como punição plena contra a crise final.
Os instrumentos de destruição, as calamidades, os flagelos serão executados como justiça de Deus sobre um mundo impenitente. Como disse William Hendriksen, em Mais que vencedores“mesmo na pior situação, os homens ainda blasfemam contra Deus por causa da grandeza do flagelo e da dureza do seu coração”. 

O império do mundo sem Deus que exala seu fétido odor como o sangue coagulado de um homem morto será aniquilado com o juízo final. Todas as intervenções divinas que culminaram em juízo temporários na história da humanidade serviram de advertência contra a total depravação dos homens. 

O desfecho final será glorioso para “aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo” (Apocalipse 1:3) e para“aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro” (Apocalipse 19:9). Mas “quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos que se prostituem, e aos feiticeiros, e aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte” (Apocalipse 21:8). 


Luciana Figueirêdo 

Fontes: 1. Bíblia de Estudo de Genebra 2. Mais que vencedores, de William Hendriksen 3. Como ler a Bíblia livro por livro, de Gordon Fee e Douglas Stuart.

No que creio...

Terça-feira, 30 de julho de 2013 (antigo blog)


Os Cinco Solas da Reforma Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria

por Declaração de Cambridge 

SOLA SCRIPTURA: A Erosão da Autoridade
 Só a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica atual fez separação entre a Escritura e sua função oficial. Na prática, a igreja é guiada, por vezes demais, pela cultura. Técnicas terapêuticas, estratégias de marketing, e o ritmo do mundo de entretenimento muitas vezes tem mais voz naquilo que a igreja quer, em como funciona, e no que oferece, do que a Palavra de Deus. Os pastores negligenciam a supervisão do culto, que lhes compete, inclusive o conteúdo doutrinário da música. À medida que a autoridade bíblica foi abandonada na prática, que suas verdades se enfraqueceram na consciência cristã, e que suas doutrinas perderam sua proeminência, a igreja foi cada vez mais esvaziada de sua integridade, autoridade moral e discernimento. Em lugar de adaptar a fé cristã para satisfazer as necessidades sentidas dos consumidores, devemos proclamar a Lei como medida única da justiça verdadeira, e o evangelho como a única proclamação da verdade salvadora. A verdade bíblica é indispensável para a compreensão, o desvelo e a disciplina da igreja. A Escritura deve nos levar além de nossas necessidades percebidas para nossas necessidades reais, e libertar-nos do hábito de nos enxergar por meio das imagens sedutoras, clichês, promessas e prioridades da cultura massificada. É só à luz da verdade de Deus que nós nos entendemos corretamente e abrimos os olhos para a provisão de Deus para a nossa sociedade. A Bíblia, portanto, precisa ser ensinada e pregada na igreja. Os sermões precisam ser exposições da Bíblia e de seus ensino, não a expressão de opinião ou de idéias da época. Não devemos aceitar menos do que aquilo que Deus nos tem dado. A obra do Espírito Santo na experiência pessoal não pode ser desvinculada da Escritura. O Espírito não fala em formas que independem da Escritura. À parte da Escritura nunca teríamos conhecido a graça de Deus em Cristo. A Palavra bíblica, e não a experiência espiritual, é o teste da verdade. 

 Tese 1: Sola Scriptura
Reafirmamos a Escritura inerrante como fonte única de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo o que é necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. Negamos que qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação. 

 SOLO CHRISTUS: A Erosão da Fé
Centrada em Cristo à medida que a fé evangélica se secularizou, seus interesses se confundiram com os da cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, um individualismo permissivo, a substituição da santidade pela integridade, do arrependimento pela recuperação, da verdade pela intuição, da fé pelo sentimento, da providência pelo acaso e da esperança duradoura pela gratificação imediata. Cristo e sua cruz se deslocaram do centro de nossa visão. 

 Tese 2: Solus Christus
Reafirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai. Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada. 

 SOLA GRATIA: A Erosão do Evangelho
A Confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas. A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são capazes de cooperar com a graça regeneradora. 

 Tese 3: Sola Gratia
Reafirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual. Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada. 

SOLA FIDE: A Erosão do Artigo Primordial
A justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé, somente por causa de Cristo. Este é o artigo pelo qual a igreja se sustenta ou cai. É um artigo muitas vezes ignorado, distorcido, ou por vezes até negado por líderes, estudiosos e pastores que professam ser evangélicos. Embora a natureza humana decaída sempre tenha recuado de professar sua necessidade da justiça imputada de Cristo, a modernidade alimenta as chamas desse descontentamento com o Evangelho bíblico. Já permitimos que esse descontentamento dite a natureza de nosso ministério e o conteúdo de nossa pregação. Muitas pessoas ligadas ao movimento do crescimento da igreja acreditam que um entendimento sociológico daqueles que vêm assistir aos cultos é tão importante para o êxito do evangelho como o é a verdade bíblica proclamada. Como resultado, as convicções teológicas freqüentemente desaparecem, divorciadas do trabalho do ministério. A orientação publicitária de marketing em muitas igrejas leva isso mais adiante, apegando a distinção entre a Palavra bíblica e o mundo, roubando da cruz de Cristo a sua ofensa e reduzindo a fé cristã aos princípios e métodos que oferecem sucesso às empresas seculares. Embora possam crer na teologia da cruz, esses movimentos a verdade estão esvaziando-a de seu conteúdo. Não existe evangelho a não ser o da substituição de Cristo em nosso lugar, pela qual Deus lhe imputou o nosso pecado e nos imputou a sua justiça. Por ele Ter levado sobre si a punição de nossa culpa, nós agora andamos na sua graça como aqueles que são para sempre perdoados, aceitos e adotados como filhos de Deus. Não há base para nossa aceitação diante de Deus a não ser na obra salvífica de Cristo; a base não é nosso patriotismo, devoção à igreja, ou probidade moral. O evangelho declara o que Deus fez por nós em Cristo. Não é sobre o que nós podemos fazer para alcançar Deus. 

 Tese 4: Sola Fide
Reafirmamos que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus. Negamos que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima. 

 SOLI DEO GLORIA: A Erosão do Culto Centrado em Deus
Onde quer que, na igreja, se tenha perdido a autoridade da Bíblia, onde Cristo tenha sido colocado de lado, o evangelho tenha sido distorcido ou a fé pervertida, sempre foi por uma mesma razão. Nossos interesses substituíram os de Deus e nós estamos fazendo o trabalho dele a nosso modo. A perda da centralidade de Deus na vida da igreja de hoje é comum e lamentável. É essa perda que nos permite transformar o culto em entretenimento, a pregação do evangelho em marketing, o crer em técnica, o ser bom em sentir-nos bem e a fidelidade em ser bem-sucedido. Como resultado, Deus, Cristo e a Bíblia vêm significando muito pouco para nós e têm um peso irrelevante sobre nós. Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito. 

Tese 5: Soli Deo Gloria
Reafirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente. Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho. 

Eu creio nas Cinco Solas da Reforma Protestante!

Um abraço,

Luciana Figueirêdo

 Fonte: Declaração de Cambridge 
 http://www.monergismo.com/

Meu querido Francis Schaeffer

Terça-feira, 30 de julho de 2013 (antigo blog)



Certa vez participei de um evento sobre fé cristã e os debates ferveram com o intuito de responder a seguinte pergunta: Como lidamos com a cosmovisão secularista? Lá encontrei um pastor (que foi meu professor de Escatologia e Teologia Sistemática) que me recomendou os textos de Francis Schaeffer, um profundo escritor descrito nas palavras de J. I. Packer "foi um homem que tinha o hábito da leitura e reflexão, que vivia no presente, aprendia com o passado e voltava os olhos para o futuro, e que tinha o dom incomum de comunicar ideias, sem cair no academicismo." 

Qual a importância das obras de Schaeffer para uma jovem cristã? Eu tinha muitos questionamentos acerca da fé, da vida e da morte. Em O Deus que intervém (1968), Schaeffer descreve uma "viva percepção da natureza integral da realidade criada, da vida humana, do pensamento das pessoas e da verdade revelada por Deus" (Packer). Durante a leitura senti que meus olhos revelavam escamas culturais alicerçadas na falta de conhecimento sobre um lado da história humana ocultada, em certos níveis, até pela Igreja. 

Mergulhei no livro. Abriu portas soldadas com  ligaduras do misticismo moderno que rondava-me como um lobo feroz. Descemos até o último degrau abaixo da linha do desespero do homem do século 21. Esferas de influência - Filosofia, Arte, Música, Cultura em geral e Teologia - estão fragmentadas na mente humana de forma relativizada. A comunicação objetiva e simples foi substituída por múltiplas vozes barulhentas e infernais. Sei que o clima intelectual e cultural da segunda metade do século 20 - que atingiu violentamente o Cristianismo Histórico com suas novas teologias - não foi fácil para a Igreja e os pensadores da época. No entanto, vemos o cumprimento das visões de Schaeffer, e nosso atual cenário é bastante desafiador para os cristãos. A pluralidade denominacional de igrejas e pensamentos antropocêntricos diluídos em todas as camadas humanas estão apontando diferentes caminhos para o homem de forma assustadora.

Reunir uma bagagem intelectual para confrontar as múltiplas questões embaraçadas do relativismo  e falar do Cristianismo Histórico dentro da Igreja e fora deve ser o alvo do testemunho cristão para a nossa geração vazia e faminta dos absolutos divinos.

Luciana Figueirêdo

domingo, 7 de junho de 2015

Shalom - como as coisas deviam ser / parte 1

O tema proposto aqui faz parte de uma reflexão do livro Não era para ser assim, de Cornelius Platinga, da Editora Cultura Cristã, sobre a natureza humana no viés da visão da reforma protestante. Cornelius Platinga Jr. é professor de Teologia Sistemática no Calvin Theological Seminary e pastor auxiliar da Woodlawn Christian Reformed Church, Grand Rapids, Michigan. 

Li este livro em 2008. A proposta era recuperar uma antiga consciência que foi desviada ( e sempre há novas tentativas de desvio pelo movimento do relativismo secular) e alterada pelo pensamento humanista. A consciência  de nossa depravação é uma sombra, mas comumente aceita pelo Cristianismo histórico. João Calvino, um homem piedoso e com uma mente privilegiada pela graça, disseminou o ensinamento de que o homem não regenerado é incapaz de produzir meios de salvação por ser escravo de uma desarmonia em sua natureza. Diferentemente do pensamento de alguns filósofos, como Rousseau, o ser humano não é integralmente bom. A nossa luta contra os erros mostra que a natureza foi criada com a imagem de um ser harmonioso e que o que ocorre nela foi por causa de uma ruptura abismal tão profunda que as consequências levaram o homem a aceitar o pessimismo. O "você pecou" é uma acusação suavizada pelo sorriso e tom de piada. Já passou o tempo de que essa acusação chocava as pessoas. 

Não era para ser assim é um título desafiador para a visão pessimista. Tudo hoje pode ser justificado pela quebra de paradigmas em um ciclo ad infinitum. Diria que esse pensamento hegeliano é um buraco negro e não resolveu os nossos dilemas - irritabilidade existencial, solidão, sombra da morte, tédio, agonias, distorções de caráter, inquietação, separação, vergonha e falta de significado. Então, a nossa miséria é o maior problema humano. Ela entrelaça nossa existência - desde problemas no nascimento, doenças, acidentes e irritações. Essa miserabilidade tem esse poder e nossa mentalidade foi comprometida. A desarmonia que corrompeu a imagem e semelhança de Deus em nós atingiu poderosas capacidades humanas: pensamento, emoções, linguagem e atos. O rompimento da harmonia criada resiste à restauração divina dessa harmonia. Todos erram o alvo. 

Uma palavra me chamou a atenção pelo seu uso entre os judeus e cristãos: SHALOM. De acordo com o autor, os profetas sabiam das muitas maneiras pelas quais a vida pode dar errado porque sabiam das muitas formas pelas quais a vida pode dar certo (você precisa do conceito de uma parede no prumo a fim de saber se uma parede está fora de prumo). A tortuosidade humana é o campo de atuação para a possibilidade de ser aplanada. O tolo seria feito sábio e o sábio, humilde. "Sonhavam com um tempo em que os desertos iam florir, as montanhas cobririam de videiras, o choro cessaria e as pessoas poderiam dormir sem suas armas ao lado. As pessoas trabalhariam em paz e obteriam resultados. As ovelhas deitariam ao lado dos leões. Toda a natureza seria frutífera e cheia de maravilhas após maravilhas", página 23. A essa harmonia que ajunta Deus, homens e toda a criação em justiça e gozo, é que os profetas hebreus chamam de shalom, o florescimento universal, totalidade e prazer. Somente um louco é contra essa visão. Lutar pela shalom é defender a visão celestial. Hoje eu vejo que a carta de apocalipse conforta neste aspecto para o louvor dos bons (mediante a restauração proposta em Cristo) e punição dos maus ( aqueles que não se arrependem do vandalismo do pecado que perturbou a criação). A resistência natural humana à redenção também entra na conta da dívida e mostra sua real perversidade. 

Concordaríamos que, em linhas gerais, o mundo perfeito pertence a uma natureza perfeita ( o que não é a nossa). 

O salmo 51: 1 - 14 é atribuído a Davi (que o teria escrito após o adultério com Bate- Seba):

"Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; apaga as minhas transgressões, segundo a multidão das tuas misericórdias.
Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado.
Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.
Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares." Leia mais em: Salmos 51:1-14


Resumindo, pecado é a culpa da quebra da shalom

Percebemos que "ao longo das gerações a própria natureza humana, com seu vasto misterioso amálgama de capacidade de pensar, sentir, gerir, amar, criar, responder e agir virtuosamente - isto é, com sua vasta capacidade de refletir a Deus - se torna a maior portadora e exibidora da corrupção" (página 43). 

Por Luciana Figueiredo



Constatar algumas tragédias humanas mina a esperança. Com o pecado e a culpa, não é assim. Algo pode ser feito a respeito deles. Algo já foi feito.
Cornelius Plantinga Jr. tira a poeira e o cheiro de naftalina da antiga doutrina do pecado. Ela é apresentada neste livro direta à nossa cultura e suas tendências.
A natureza e a dinâmica do pecado apresentadas para renovar nosso conhecimento e despertar nossa sensibilidade acerca de uma realidade persistente.
Cornelius Plantinga Jr. é professor de Teologia Sistemática no Calvin Theological Seminary e pastor auxiliar da Woodlawn Christian Reformed Church, Grand Rapids, Michigan.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Um drama amplamente reconhecido

A pergunta "Por que faço (sempre) o que não quero? ¹" é quase uma confissão. Uma indagação que incomoda e aponta. Mas não é só conversa de crentes, confessionário ou algo parecido. Ela está entre os intelectuais, psicopatas, povos e templos diversos. Resolvi destacar alguns pensamentos refletidos em uma diferente época sobre a ambivalência do mal e do bem, um dos dilemas humanos e pilares desse secularismo.  

O suíço Francis Schaeffer² já destacou em suas obras que o pensamento de John Locke (1632 - 1704) e Jean Jacques Rousseau (1712 - 1778) não solucionou o nosso dilema incômodo existencial: quem é o homem? Absolutamente bom ou absolutamente mal? Nem uma coisa nem outra, claro! Nem muito menos o bom selvagem, longe do processo de civilização. Em algum lugar dentro de nós habita tanto o médico como o monstro. É um discernimento da nossa própria sombra. 

Blaise Pascoal (1623 - 1662) disse: "Como o coração do homem é oco e cheio de baixeza!". Deve-se a ele a famosa Lei de Pascoal, a teoria das probabilidades e do carrinho de mão de uma roda só. Não era teólogo, nem psicólogo, nem antropólogo. Todavia, era notório seu conhecimento de si mesmo e dos outros. Somos um amontoado de misérias e grandezas. Mas como lutar contra essa miserabilidade e natureza corrompida? Lendo um pouco sobre a história de Blaise, suas declarações a cerca de Jesus Cristo, desde sua conversão em 1654, aos 31 anos de idade, após um acidente de carruagem numa das pontes de Paris, percebo sua notável mentalidade sobre o mal e a visão cristocêntrica. Uma declaração dele foi: “Sem Jesus Cristo, o homem permanece no vício e na miséria. Com Jesus Cristo, o homem está imune ao vício e à miséria. Nele encontram-se nossa virtude e toda a nossa felicidade. Fora dele, há apenas vício, miséria, erros, trevas, morte e desespero”.

Veja alguma de suas reflexões sobre o mal que habita em nós e que somente em Jesus, esse dilema é resolvido por meio do ato de propiciação³.

“Quem não se conhece cheio de soberba, de ambição, de concupiscência, de fraqueza, de miséria e de injustiça é bastante cego.”

“Precisamos baixar os olhos para a terra para nos vermos como míseros vermes, e olhar para as feras das quais somos companheiros.”

“Hoje o homem se tornou semelhante aos animais, num tal afastamento de Deus que apenas lhe resta uma luz confusa de seu Criador.”

“O Cristianismo é estranho: ordena ao homem que reconheça que é vil e até abominável; e ordena-lhe que queira ser semelhante a Deus.”

“A encarnação [de Jesus] mostra ao homem a grandeza de sua miséria pela grandeza do remédio de que ele precisa.”

“Existe uma guerra interior no homem, entre a razão e as paixões. Sem a razão, haveria só paixão. Mas existe uma e outra e elas não podem existir sem guerra. O homem está dividido dentro de si mesmo.”

“Os inimigos dos homens não são os babilônios, mas as suas paixões.”

“Se o homem se eleva, eu o rebaixo; se ele se abaixa, eu o levanto e o contradigo sempre até que ele se compenetre de que é um monstro incompreensível.”

“Sem a graça de Deus o homem não é senão um sujeito cheio de erros inapagáveis.”

“Nós não somos senão mentiras, duplicidades, contrariedades. Nós nos escondemos e nos destruímos a nós mesmos.”

“Somos tão presunçosos que gostaríamos de ser conhecidos em toda a terra e também daqueles que virão quando não estivermos mais aqui. Somos tão vaidosos que a estima que nos rodeia nos ilude e nos deixa contentes.”

“Nascemos injustos e depravados.”

“Estamos cheios de concupiscência; portanto cheios do mal. Assim deveríamos odiar a nós mesmos e a tudo o que nos excita a outro vínculo que não seja somente Deus.”

“Salvo o Cristianismo, nenhuma religião ensinou que o homem nasceu no pecado. Nenhuma escola filosófica o afirmou. Nenhuma, pois, disse a verdade.”

“Jesus Cristo não fez outra coisa senão ensinar aos homens que eles eram amantes de si mesmos, escravos, cegos, doentes, infelizes e pecadores.”

“Perdemo-nos nos vícios e não vemos mais a virtude.”

Essas frases foram extraídas do livro Pensamentos, de Blaise Pascoal – São Paulo: Folha de São Paulo, 2010, p. 37. Todo o texto é baseado no livro César, Elben M. Lenz, Por que (sempre) faço o que não quero? – Viçosa, MG: Ultimato, 2011.

Eu não fico tão perplexa com a atuação do mal do homem, mas com a graça escandalosa de Deus que colocou o seu Filho o castigo que nos traz a paz (Isaías 53:5). Ter a mente de Cristo é o dever de todo cristão. Essa é a mentalidade que transforma o homem. Em Cristo, vejo quem eu sou de verdade. Soli Deo Gloria!

Por Luciana Figueiredo

Notas:

1. César, Elben M. Lenz, Por que (sempre) faço o que não quero? – Viçosa, MG: Ultimato, 2011.

2. Francis Schaeffer foi um dos principais pensadores evangélicos contemporâneos que procurou compreender a cultura secular. Leia mais em: http://www.labri.org.br/#!francis-schaffer/cyfa.

3. “Propiciação” é aquele ato sacrificial pelo qual Deus se torna propício. Isso não ajuda muito, não é? “Propício” significa simplesmente favorável. Ou seja… dizer que a propiciação é um ato pelo qual Deus se torna propício, é dizer que é um ato pelo qual se torna favorável a nós. Ele é contrário a nós em certo sentido em ira, mas agora, por meio desse ato sacrificial, ele se torna favorável a nós. É propiciação.

“Expiação” é o ato pelo qual o pecado é cancelado. É anulado. Apagado do registro. Então o objeto da expiação é o pecado. O objeto da propiciação é Deus. Deus se torna favorável. Veja mais em: http://www.revistamonergista.com/2014/04/o-deus-presente-1114.html.






quarta-feira, 3 de junho de 2015

A falibilidade que me humaniza

“Eia agora vós, que dizeis: Hoje, ou amanhã, iremos a tal cidade, e lá passaremos um ano, e contrataremos, e ganharemos; Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Em lugar do que devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e se vivermos, faremos isto ou aquilo.” (Tiago 4:13-15)

Conhecimento é a busca pela verdade. Errar é humano. Reconhecer o erro deve ser um ato mergulhado de luta insistente contra ele, mas não elimina a possibilidade de cometer novos erros (honestamente). Mesmo rezando um texto instrucional (Bíblia, Gramática da Língua Portuguesa, Constituição Brasileira, etc.), podemos ser solapados pela vulnerabilidade humana. Mesmo sendo poderosa e rica ninguém pode garantir a sua própria existência ou a duração dela. “Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece.” Tiago destaca que há limites e que a nossa própria razão obscurece pela ilusão do preparo e planejamento pessoais. Mas o fato de organizar a vida através de um arcabouço diário de metas não deve ser jogado fora, claro.  Reflito na ação de ser resiliente diante da pequenez existencial. Não só os talentos, mas meus limites também propagam quem eu sou. 

Acredito que já estou distante do perfeccionismo que calcei com sapatos moralistas em certo tempo de minha vida. Mas quem disse que a angústia não tem um mal cheiro desse calçado? Amar a verdade esmurra nosso ego. Eu sei que "o indivíduo se assemelha ao que ele reverencia, quer para sua ruína, quer para sua restauração".*  

A solução cristã é: Os que confiam no SENHOR serão como o monte de Sião, que não se abala, mas permanece para sempre.” (Salmos 125:1) 


Em resumo, o ser humano não é infalível. O reconhecimento desse fato é que me faz ser mais tolerante e resiliente. 

“Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do SENHOR permanecerá.” (Provérbios 19:21)



*Citação tirada do prefácio do livro Você se torna aquilo que adora, de G. K. Beale, Editora Vida Nova.  








domingo, 31 de maio de 2015

Poesia Sorriso amarelo

O mundo inteiro ouviu
Sem mais desculpas
A multidão aplaudiu
Oh, Grande Irmão!
Oh, Grande Irmão!
Oh, Grande Irmão!
Espatifou o sagrado
E ficou o sorriso amarelo.
A corda vendida é a mesma que sacrificará o vendedor!
Olhos vendados de injustiça
Braços cortados da balança.
Pés que se apressam ao mal
Medíocres igualitaristas!
Afronta à dignidade!
Não há boas novas
O pessimismo é a moda.
Ouçam-me! Mas só pode ser baixinho.
Guerra é paz
Liberdade é escravidão
A insensatez corrói a mente
Escute-me! Mas só pode ser baixinho.
Não cobices seus banquetes saborosos
Porque a comida é enganadora.
Ah, que noite escura!
Uma fresta de luz
cintila no ferrolho. 

Por Luciana Figueiredo